Se você acompanha futebol espanhol, provavelmente já pensou algo assim:
“Os caras gostam muito de ‘Real’, né?”

Real Madrid.
Real Sociedad.
Real Betis.
Real Zaragoza.

Parece mania nacional. Parece tradição antiga.

Mas não é gosto, nem coincidência — e muito menos só futebol.
Isso tem uma explicação histórica.
E ela passa, inevitavelmente, por poder.

A ESPN já explicou por que tantos clubes espanhóis usam “Real” no nome e deixou claro que o termo não nasce no esporte, mas em uma concessão institucional da monarquia espanhola:
👉 https://www.espn.com/soccer/story/_/id/37625771/why-many-spanish-clubs-called-real

A partir daí, a pergunta muda:
não é “por que Real?”, mas quem autorizou esse nome — e por quê?.

Real” não é estilo. É Estado.

Na Espanha, “Real” significa literalmente “do Rei”.

Historicamente, o termo era usado para designar instituições que possuíam reconhecimento formal da Coroa espanhola. Muito antes do futebol, academias, ordens militares, fundações culturais e entidades civis já recebiam o “Real” como um selo de prestígio institucional.

Era uma forma clara do Estado marcar presença simbólica.

Quando o futebol explode como fenômeno popular no início do século XX, ele deixa de ser apenas jogo. Vira espaço de identidade coletiva, de pertencimento, de visibilidade pública.
E onde há identidade coletiva, há interesse político.

O futebol entra no radar do poder

No começo dos anos 1900, a Espanha vivia instabilidade política, tensões regionais e uma monarquia tentando manter legitimidade. O futebol surge como um território novo: popular, emocional, acessível.

A Coroa percebe rápido que clubes não eram apenas times — eram comunidades organizadas em torno de afeto, orgulho local e mobilização social.

Conceder o título “Real” a clubes populares era uma forma de:

  • se aproximar do povo
  • associar o Estado à cultura cotidiana
  • inscrever o poder dentro da paixão

Nada disso era imposto.
Era simbólico.

E símbolo é uma das formas mais eficientes de poder.

Como um clube se tornava “Real”

Não era automático.
Os clubes solicitavam formalmente o título à Casa Real.

Se aprovado, vinham três coisas:

  • o “Real” no nome
  • a coroa no escudo
  • reconhecimento institucional

O Real Madrid recebeu oficialmente o título em 1920, concedido pelo rei Alfonso XIII. A própria história institucional do clube registra a concessão do título e a adoção da coroa no escudo como parte da identidade oficial:
👉 https://www.realmadrid.com/en/about-real-madrid/history-and-honours/history

A Real Sociedad também documenta que recebeu o título por concessão direta da monarquia, algo que passou a integrar sua identidade histórica:
👉 https://www.realsociedad.eus/en/club/history

O Real Betis segue o mesmo caminho, com o reconhecimento formal do título “Real” no início do século XX, como descrito em sua história institucional:
👉 https://en.realbetisbalompie.es/club/history-of-betis/

Não é folclore.
É registro institucional.


Quando o “Real” foi arrancado — e tudo ficou claro

Se ainda restava dúvida sobre o caráter político do símbolo, a história respondeu.

Em 1931, com a proclamação da Segunda República Espanhola, a monarquia foi abolida. Um dos primeiros movimentos do novo regime foi remover símbolos monárquicos das instituições públicas.

Isso atingiu o futebol.

Clubes perderam o “Real”.
A coroa saiu dos escudos.

Esse processo — de retirada de símbolos ligados à monarquia e reorganização institucional — é analisado em estudos históricos sobre a relação entre futebol, identidade nacional e regimes políticos na Espanha.

O ponto aqui é simples e incontornável:
👉 se o Estado manda tirar o símbolo, é porque o símbolo pertence ao Estado.

Neutralidade não existe aqui.
Existe política.


Franco, futebol e a reutilização dos símbolos

Após a Guerra Civil, com Francisco Franco no poder, o futebol volta a ocupar um papel estratégico na construção da imagem do Estado espanhol.

Não de forma caricata.
Mas de forma eficiente.

Estudos e análises contemporâneas mostram que o regime franquista utilizou o futebol como instrumento de propaganda e narrativa política, explorando vitórias esportivas, projeção internacional e símbolos tradicionais para comunicar estabilidade, unidade e força nacional.

Uma análise aprofundada sobre política, ideologia e poder no futebol espanhol pode ser encontrada neste artigo do Georgetown Journal of International Affairs:
👉 https://gjia.georgetown.edu/2025/04/18/politics-ideology-and-power-in-spanish-football-fc-barcelona-and-the-tensions-between-the-center-periphery-cleavage/

Além disso, estudos sobre o uso político do futebol como propaganda de Estado mostram como regimes autoritários se apropriam do esporte para projetar narrativas positivas:
👉 https://www.byarcadia.org/post/political-use-of-football-through-propaganda

O ponto aqui não é transformar clubes em vilões ou heróis.
É entender que o futebol nunca esteve fora da política — apenas foi tratado assim por conveniência.


Hoje é tradição. Mas tradição também comunica.

Hoje, ninguém torce por causa do rei.
O “Real” virou marca, identidade, algo naturalizado.

Mas tradição não apaga origem.
Ela só faz a gente parar de perguntar.

E o futebol é cheio de símbolos que continuam comunicando, mesmo quando a gente finge que são apenas decoração.

Nome, escudo, hino, cor — tudo carrega história.


No fim das contas

O “Real” nos clubes espanhóis não é detalhe.
É história institucional.
É poder simbólico.
É futebol falando muito além do jogo.

Entender isso não é atacar clubes nem torcidas.
É tratar o futebol com a seriedade que ele merece como fenômeno social.

Porque futebol nunca foi só bola rolando.
E símbolo nenhum é neutro.

O futebol não termina no apito final.
Ele continua nos nomes, nos escudos, na memória e no poder.

Esse é o O Jogo Fora do Jogo.

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