

Entenda como religião, imigração, política e território moldaram o maior clássico da Escócia
Você olha de fora, parece “apenas” mais um clássico entre tantos.
Camisa verde e branca contra camisa azul. Dois gigantes. Um estádio fervendo. Um país pequeno vivendo um jogo grande.
Mas quem já se aproximou do “Old Firm”, como é conhecida essa rivalidade, sabe: Celtic x Rangers não é só futebol!
É uma disputa que atravessa religião, imigração, classe, política, território, memória e, em muitos momentos, violência. Em Glasgow, esse jogo não “acontece no domingo”. Ele organiza a semana. Ele organiza a cidade, ele vale mais que o campeonato para seus torcedores! Basicamente se os torcedores do Celtic se posicionam sobre um assunto de um lado, os do Rangers se posicionam de forma contrária e vice-versa.
E isso tem motivo.
O que é o Old Firm (e por que esse nome diz muito?)
O termo “Old Firm” é usado há mais de um século e é explicado, em geral, como um rótulo que junta duas coisas ao mesmo tempo:
- a rivalidade esportiva real
- o fato de que os jogos sempre foram também um grande negócio (público, bilheteria, manchete, poder)
Não é só apelido. É um nome que carrega a ideia de “duopólio” do futebol escocês, dois clubes que, por décadas, concentraram títulos, torcida, dinheiro e influência.
Glasgow antes da bola: imigração, trabalho e fronteiras invisíveis
Glasgow virou uma das grandes cidades industriais da Europa. E como quase toda cidade industrial, ela cresceu com trabalho duro, migração e tensão social.
O Celtic nasce em 1887, muito conectado a esse contexto: ele surge com raízes comunitárias e de assistência, ligado ao esforço de apoiar populações pobres (muito marcadas pela imigração irlandesa e pela presença católica no leste de Glasgow). O próprio Celtic como instituição registra esse traço de origem e caridade como parte da sua identidade histórica e seus torcedores carregam como símbolo de pertencimento.
Já o Rangers é mais antigo, 1872 e se consolidou como um clube associado a outro polo cultural: protestantismo, unionismo (Unionismo na Escócia é o movimento político que defende a permanência da Escócia como parte do Reino Unido, em oposição à independência) e uma rede social diferente dentro da cidade.
Essa “divisão” não é uma regra matemática (ninguém nasce com um escudo no berço), mas ela virou linha de pertencimento. Glasgow passou a viver com uma espécie de mapa paralelo: onde você mora, onde você anda, o que você veste, o que você canta, o que você evita.
E o clássico vira o lugar onde isso explode.
A rivalidade religiosa não cai do céu: ela é construída
A parte que muita gente repete (“católicos x protestantes”) é real como marca cultural, mas simplificar demais é perigoso.
O Old Firm é um acúmulo de camadas:
- religião como identidade social
- imigração irlandesa e preconceito
- política (Irlanda, Reino Unido, lealdades nacionais)
- classe e território
- tradições e símbolos que viram bandeiras
Ou seja: não é só sobre fé. É sobre pertencimento e poder.
Quando a paixão vira problema: violência, sectarismo e efeitos fora do estádio
Essa é a parte que muita gente tenta empurrar pra debaixo do tapete, porque “estraga o futebol”. Mas aqui, o projeto é outro: o futebol como reflexo de nossa construção histórica e como ele é presente em temas muito mais complexos do que apenas o jogo.
O Old Firm tem histórico de episódios de desordem, confrontos e tensões sociais em dias de jogo e isso aparece em debates públicos há muito tempo.
No grande clássico de Glasgow, os conflitos mais impactantes não nasceram de um lance duro ou de um gol decisivo. Eles nasceram quando o futebol virou palco de símbolos que ultrapassam o jogo. Um dos episódios mais emblemáticos aconteceu em 2022, quando torcedores do Celtic vaiaram e protestaram durante homenagens à morte da Rainha Elizabeth II. Para muitos fora de Glasgow, aquilo soou apenas como desrespeito institucional. Dentro da lógica histórica da cidade, foi lido como algo mais profundo: a rejeição explícita a uma figura associada à Coroa britânica, ao unionismo e a um passado de exclusão vivido pela comunidade católica e irlandesa. Não foi um ato espontâneo de arquibancada, mas a expressão pública de uma memória política que o futebol apenas amplificou. O episódio gerou reações oficiais, pedidos de investigação e reacendeu o debate sobre até onde vai a liberdade de expressão no estádio e onde começa a provocação sectária.
Anos antes, em 2016, outro gesto chocou o país. Torcedores do Celtic exibiram bonecos infláveis “enforcados”, vestidos com cachecóis do Rangers, pendurados nas arquibancadas durante um clássico. Aquilo não foi interpretado como metáfora esportiva. A imagem de corpos pendurados tocou diretamente em feridas históricas de violência política, linchamento simbólico e desumanização do rival. A repercussão foi imediata: condenação institucional, pedidos de punição e um consenso raro de que aquele gesto havia cruzado uma linha. O episódio virou referência sempre que se discute o limite entre provocação e ódio no futebol escocês.
Mas a violência do Old Firm nunca foi exclusividade de um lado e a história deixa isso claro. Torcedores ligados ao Rangers também protagonizaram episódios graves ao longo das décadas. Houve confrontos violentos no entorno dos estádios, ataques a propriedades associadas ao Celtic, agressões físicas em dias de jogo e cânticos sectários que celebravam a exclusão do “outro” como identidade. Em Julho de 2019, a lenda inglesa, Steven Gerrard, quando ainda era treinador dos Rangers se posicionou sobre o tema após mais um desses constantes casos de posicionamentos sectários “camuflados” de cânticos esportivos após um jogo da Liga Europa contra St. Joseph’s, de Gibraltar, aos quais os torcedores do time azul da cidade entoavam bravamente contra católicos. Gerrard na ocasião se pronunciou de forma contundente: “Espero que esta seja a última vez que tenhamos que lidar com questões sobre o comportamento da torcida. Queremos que os torcedores estejam nos jogos, se divirtam e apoiem o time. É isso que significa torcer. Temos uma das melhores torcidas do mundo. Então, quando você ouve algo assim, mancha a nossa reputação.”
Em diferentes momentos, autoridades escocesas precisaram intervir com leis específicas, ordens de banimento de torcedores e reforço policial massivo justamente porque os episódios se repetiam, independentemente de quem vencia em campo.
Dentro desse contexto urbano de tensão, ressurgiu nos últimos anos uma referência sombria da história de Glasgow: o chamado “Glasgow smile”. O termo remete a uma prática violenta antiga da cidade, em que vítimas tinham o rosto cortado dos cantos da boca até as bochechas, criando uma cicatriz permanente. Relatos recentes associaram ataques com lâminas a confrontos entre grupos rivais em dias de clássico, reacendendo o medo de que símbolos históricos da violência urbana estivessem sendo reativados sob a lógica da rivalidade futebolística. Esses ataques não aconteceram dentro dos estádios, mas orbitando o jogo em bares, ruas e rotas tradicionalmente ligadas a uma ou outra torcida.
O que conecta todos esses episódios não é o placar, nem o clube vencedor. É o fato de que, no Old Firm, o futebol funciona como gatilho. Ele ativa identidades profundas, memórias herdadas e fronteiras simbólicas que Glasgow nunca conseguiu apagar completamente. Por isso, cada clássico exige planejamento institucional, discursos públicos de contenção e campanhas contra o sectarismo. Não porque o futebol seja violento por natureza, mas porque ali ele concentra história demais, símbolos demais e cicatrizes que nunca fecharam.
Números: quem ganhou mais? quantos jogos? quantos títulos?
Vamos ao que o torcedor pede, mas do jeito certo: com fonte.
Confronto direto (todas as competições)
Segundo o Soccerbase, um agregador estatístico tradicional do futebol britânico, o total histórico (somando liga e copas) aparece assim:
- Rangers: 172 vitórias
- Empates: 106
- Celtic: 170 vitórias
Observação importante (jeito “O Jogo Fora do Jogo”): bases estatísticas podem divergir em critérios (amistosos, competições regionais antigas etc.). Por isso, aqui eu uso um agregador que mantém o recorte explícito e atualizável.
Títulos de liga (a obsessão nacional)
Em abril de 2025, a Reuters registrou o Celtic alcançando o 55º título de liga, igualando o recorde do Rangers.
Ou seja: hoje, em liga, é empate histórico (55–55) — e isso alimenta o clássico até quando não tem bola rolando.
Copas e a disputa de “maior vencedor”
- A Reuters e o Guardian registraram o Celtic como recordista da Scottish Cup com 42 títulos, já os Rangers apresentam 34 títulos
- A Copa da Liga Escocesa outro tradicional título nacional já apresenta uma vantagem para a equipe azul, são 28 títulos contra 22 do Celtic.
O que esse clássico mostra sobre futebol (e sobre a gente)
O Old Firm é a prova viva de uma tese simples:
futebol não é neutro.
Ele pode ser comunidade e afeto, sim.
Mas também pode ser simbolismo para fronteira, poder, exclusão e conflito.
E em Glasgow, isso fica impossível de fingir que não existe.
Porque o futebol não termina no apito final.
Ele continua nas ruas e, às vezes, cobra um preço.
Esse é o O Jogo Fora do Jogo.






Fontes e referências
Origem e significado do termo “Old Firm”
- Goal — explicação histórica sobre o termo e seu uso no futebol escocês
https://www.goal.com/en/news/why-is-celtic-vs-rangers-called-the-old-firm-derby/2i9ekbdius7e10xt04lrg85s0
Origens comunitárias e identidade do Celtic
- Celtic FC Charity — legado social de Brother Walfrid e raízes comunitárias do clube
https://charity.celticfc.com/uncategorized/honouring-the-example-and-legacy-of-brother-walfrid/ - Celtic FC — registro institucional da história do clube
https://www.celticfc.com/news/4822/
Títulos recentes e marcos históricos
- Reuters — Celtic conquista o título escocês de 2025
https://www.reuters.com/sports/soccer/celtic-thrash-dundee-utd-seal-scottish-title-style-2025-04-26/ - Reuters — final da Scottish Cup 2024 entre Celtic e Rangers
https://www.reuters.com/sports/soccer/celtic-leave-it-late-beat-rangers-win-scottish-cup-2024-05-25/ - The Guardian — cobertura ao vivo da final da Scottish Cup 2024 (42º título do Celtic)
https://www.theguardian.com/football/live/2024/may/25/celtic-v-rangers-2024-scottish-cup-final-live
Histórico de confrontos diretos (head-to-head)
- Soccerbase — placar agregado histórico entre Celtic e Rangers
https://www.soccerbase.com/teams/head_to_head.sd?team2_id=512&team_id=2104
Pesquisas acadêmicas sobre Old Firm e violência
- University of St Andrews — estudo sobre Old Firm e registros de violência doméstica
https://research-repository.st-andrews.ac.uk/handle/10023/4063 - University of Strathclyde — paper acadêmico sobre futebol e violência doméstica (PDF)
https://www.strath.ac.uk/media/1newwebsite/departmentsubject/economics/research/researchdiscussionpapers/2013/13-01Final.pdf - Scottish Centre for Crime and Justice Research — revisão de literatura sobre futebol e violência doméstica (PDF)
https://www.sccjr.ac.uk/wp-content/uploads/2014/11/Football-and-Domestic-Abuse_Literature-Review_25-NOV-2014.pdf
Dados institucionais e debate público
- Governo da Escócia — FOI sobre incidentes sectários em partidas de futebol
https://www.gov.scot/publications/foi-19-01971/ - The Guardian — debate público sobre violência e rivalidade no Old Firm
https://www.theguardian.com/uk/2011/mar/08/celtic-rangers-old-firm-violence
https://www.theguardian.com/commentisfree/2011/mar/12/celtic-rangers-glasgow-domestic-violence
Contraponto e debate crítico
- Sky Sports — estudo questionando generalizações entre futebol e violência doméstica
https://www.skysports.com/football/news/11095/11464055/no-link-between-domestic-violence-and-football-study-says
Conteúdo audiovisual complementar
Peleja (YouTube) — vídeo contextual sobre o Old Firm
https://www.youtube.com/watch?v=2xO0z0pHY98

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