Existe uma leitura preguiçosa sobre o retorno de Gabigol ao Santos.
Ela começa e termina no salário.

“Quanto ele ganha.”
“Quanto custa.”
“Se vale a pena.”

Mas essa leitura ignora o principal: o que ele poderia ter feito e escolheu não fazer?

Gabigol poderia ter sentado no contrato.
Poderia ter aceitado o banco.
Poderia ter virado coadjuvante bem pago.

Não fez.

E não é a primeira vez.


Os números não contam tudo, mas ajudam a lembrar quem ele é

Gabigol não é um jogador comum da geração dele.
Os números ajudam a contextualizar:

  • mais de 250 gols como profissional
  • artilheiro do Campeonato Brasileiro em múltiplas temporadas
  • protagonista em títulos nacionais e continentais
  • gols em finais, decisões, jogos grandes

É um jogador que gosta de estar onde a bola pesa.

E isso importa.

Porque futebol de alto nível não é só técnica.
É cabeça, ambição e desejo de estar no centro do jogo.


A escolha pelo desafio (de novo)

Quando sai do Flamengo, Gabigol já poderia ter escolhido o caminho mais confortável possível.
Não escolheu.

Foi para o Cruzeiro em um contexto difícil, instável, de reconstrução, fora das principais competições internacionais.
Ali, encontrou concorrência pesada, contexto tático ingrato e um ambiente que não favorecia o seu jogo.

Mesmo assim, não se escondeu.
Não pediu saída pela porta dos fundos como outros do próprio elenco fizeram
Não se acomodou, deu entrevistas, deixou claro que queria minutos e nunca desmerecendo a instituição ou prejudicando o ambiente do clube.

E agora, de novo, escolhe se desafiar.

O retorno ao Santos não é nostalgia.
É estratégia.


Por que o Santos faz sentido (e não é só emoção)

O Santos oferece algo que Gabigol precisa neste momento da carreira:

  • ambiente onde ele é querido
  • torcida que entende o personagem
  • clube onde foi formado
  • menos concorrência direta por posição

E isso não é demérito.
É contexto.

Nos últimos anos, ele disputou espaço com Pedro, que hoje é, na minha opinião, o homem-gol mais completo do futebol brasileiro.
Depois, viu a ascensão meteórica de Kaio Jorge, que mudou de hierarquia rapidamente.

Competir é parte do jogo.
Mas contexto importa.

No Santos, Gabigol volta para um cenário onde pode ser referência técnica e simbólica.

E isso muda tudo.


Neymar, ambiente e identidade

Existe também o fator humano.

Neymar,  hoje cunhado, não é só uma estrela.
É um catalisador de ambiente, mídia e expectativa.

Um Santos com Neymar e Gabigol não é só futebol.
É narrativa pronta.

E futebol também é isso:
história, símbolo, conversa pública.


Todo mundo ganha se Gabigol voltar ao alto nível

Se Gabigol performar, todo mundo sai ganhando:

  • o Santos, que não arca com 100% do salário e ganha protagonismo esportivo e midiático
  • o Cruzeiro, que já assumiu um prejuízo financeiro, mas pode recuperar valor em uma eventual venda se o jogador voltar a performar em alto nível ou até mesmo e sabemos como o futebol é imprevisível, voltar para o próprio Cruzeiro com a confiança reestabelecida.
  • o futebol brasileiro, que ganha um personagem raro

Porque Gabigol fala, provoca, incomoda, gera debate.
Ele não é o jogador do discurso ensaiado.
Não é o atleta do clichê.

E isso faz falta.


O ponto final

O retorno de Gabigol ao Santos não é sobre passado.
É sobre futuro.

É sobre um jogador que se recusa a desaparecer em silêncio.
Que prefere errar tentando ser protagonista do que acertar se escondendo.

Num futebol cada vez mais pasteurizado, personagens assim são raros.
E valiosos.

Se ele vai dar certo e recuperar o protagonismo e o título de Predestinado?
O campo responde.

Mas a escolha, essa, já diz muito.

E diz bem.


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