Durante toda a semana, os protagonistas repetiram a mesma mensagem:

“É apenas futebol.”

Lionel Scaloni falou de maneira firme e os jogadores evitaram alimentar a rivalidade ou inflamar algo nesse sentido. Era uma postura compreensível.

Ninguém responsável deveria transformar uma partida em continuação simbólica de uma guerra que matou centenas de pessoas. Mas existe uma diferença entre não confundir futebol com guerra e fingir que a história não entra no estádio.

Porque entrou. E entrou no planejamento especial de segurança, nos portões separados para as torcidas, na proibição de faixas relacionadas às Malvinas ou qualquer manifestação política, na forma como os hinos foram cantados, na tentativa argentina de abafar o hino inglês, na clara tensão dos jogadores, nas faltas, e principalmente, entrou em campo depois do apito final, quando jogadores argentinos estenderam uma faixa com a mensagem:

“Las Malvinas son argentinas.”

A faixa havia sido proibida pela Fifa e mesmo assim, terminou nas mãos dos jogadores.

Depois de tudo o que aconteceu, insistir que era somente futebol parecia quase uma negação do que todos tinham acabado de assistir.

Foto: Alexandre Battibugli/VEJA

Antes da rivalidade, a Inglaterra ajudou a levar o futebol para a Argentina

A relação entre argentinos e britânicos não foi construída apenas por conflitos.

Durante o século XIX, o Reino Unido teve enorme influência econômica na Argentina. Investimentos britânicos ajudaram na expansão das ferrovias, dos portos, dos bancos e dos frigoríficos.

Comerciantes, marinheiros e trabalhadores ingleses também levaram seus costumes. Entre eles, o futebol.

Clubes, bairros e instituições argentinas guardam até hoje sinais dessa presença. Banfield, Newell’s Old Boys, Rver Plate, Temperley  e etc são alguns exemplos de nomes ligados à influência britânica.

Existe, portanto, uma contradição histórica poderosa: a Inglaterra ajudou a apresentar à Argentina o esporte que, décadas depois, seria usado pelos argentinos como uma das principais formas de enfrentá-la simbolicamente.


A guerra que deveria salvar uma ditadura

Em abril de 1982, a Argentina era governada por uma ditadura militar desgastada. O país enfrentava crise econômica, inflação, denúncias de tortura, desaparecimentos e violações dos direitos humanos.

A ocupação das Malvinas foi também uma tentativa de recuperar apoio popular através de uma causa nacional capaz de unir o país. A estratégia funcionou por pouco tempo. O governo argentino acreditava que o Reino Unido não reagiria militarmente com força.

A então primeira-ministra Margaret Thatcher enviou uma grande operação naval ao Atlântico Sul. A guerra durou 74 dias.

Quando terminou, 649 militares argentinos, 255 britânicos e três civis das ilhas estavam mortos.

Muitos dos soldados argentinos eram jovens que cumpriam o serviço militar obrigatório. Alguns tinham 18 ou 19 anos, pouco treinamento e equipamentos inadequados para enfrentar o frio, a fome e um exército mais preparado.

Eles ficaram conhecidos na memória nacional como os pibes de Malvinas.

Garotos que foram enviados para uma guerra criada por homens muito mais velhos.

A derrota acelerou o colapso da ditadura argentina.

Mas o fim do regime não encerrou o trauma.
Por algum tempo, o país tentou não olhar diretamente para o que havia acontecido. Muitos veteranos voltaram sem acolhimento, sem reconhecimento e carregando marcas que a sociedade preferia não enxergar.

Malvinas ou Falklands: uma disputa que começou muito antes de 1982

Para os argentinos, são as Ilhas Malvinas.

Para os britânicos, Falkland Islands.

A diferença no nome já revela que não existe uma memória compartilhada sobre o território. A Argentina considera ter herdado os direitos espanhóis sobre as ilhas após sua independência. Em 1829, nomeou um governador para o arquipélago.

Em 1833, o Reino Unido retomou o controle e retirou as autoridades argentinas. Desde então, o território permanece sob administração britânica.

Os moradores atuais das ilhas, majoritariamente ligados à cultura britânica, votaram em 2013 pela permanência como território ultramarino do Reino Unido. A Argentina não reconhece a legitimidade dessa consulta, por considerar que a população atual foi formada depois da ocupação britânica.


1986: Maradona, a Mão de Deus e uma revanche que só poderia ser simbólica

Quatro anos depois da guerra, Argentina e Inglaterra se encontraram nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986.

Antes da partida, o discurso era parecido com o de 2026. Não se deveria misturar futebol e guerra.

Carlos Bilardo tentou separar os assuntos e Maradona também evitou a associação publicamente, mas após a partida admitiu que era impossível entrar em campo sem pensar nos jovens argentinos mortos nas ilhas.

No Estádio Azteca, Maradona marcou dois dos gols mais famosos da história. O primeiro com a mão, a “Mão de Deus”. O segundo, atravessando o campo, driblando adversários e produzindo aquilo que seria reconhecido como o Gol do Século.

Um gol irregular seguido de uma obra-prima. Rebeldia e genialidade em poucos minutos! A Argentina venceu por 2 a 1 e caminhou até o título mundial.

Foto: Revista argentina El Gráfico

A rivalidade já existia antes da guerra

Seria também uma simplificação dizer que Argentina x Inglaterra nasceu nas Malvinas.

O confronto já carregava tensão desde 1966.

Na Copa realizada na Inglaterra, as seleções se enfrentaram pelas quartas de final. O capitão argentino Antonio Rattín foi expulso e demorou vários minutos para deixar o campo, alegando não compreender a decisão do árbitro alemão.

A Inglaterra venceu por 1 a 0.

Depois da partida, o técnico inglês Alf Ramsey chamou os argentinos de “animais” e impediu a troca de camisas.

Aquele jogo consolidou estereótipos que atravessariam décadas. Para parte dos ingleses, os argentinos representavam o jogo violento, provocador e desleal.

Para muitos argentinos, os ingleses simbolizavam arrogância, poder institucional e uma suposta proteção das autoridades.

A guerra aprofundou uma rivalidade que já tinha encontrado no futebol um terreno fértil para ressentimentos.


Beckham, Simeone e outra noite em que a tensão venceu a neutralidade

Em 1998, as seleções voltaram a se encontrar numa Copa do Mundo e o jogo entregou tudo o que essa rivalidade parece produzir.

David Beckham foi expulso após reagir a Diego Simeone. O argentino admitiria depois que valorizou a queda e ajudou a transformar a punição do inglês.

A partida terminou empatada por 2 a 2, e a Argentina avançou nos pênaltis.

Para Beckham, virou trauma nacional.

Para Simeone, mais um capítulo da leitura argentina de que futebol também é inteligência emocional, provocação e sobrevivência.

Em 2002, Beckham teve sua redenção. Marcou de pênalti na vitória inglesa por 1 a 0, num resultado que ajudaria a eliminar a Argentina ainda na fase de grupos.

Cada encontro acrescentou uma nova camada.

1966 foi Rattín.
1986 foi Maradona.
1998 foi Beckham.
2002 foi a revanche inglesa.

E 2026 agora tem sua própria imagem.

Foto: GERARD CERLES/AFP/Getty

2026: pediram neutralidade

Antes da semifinal, Scaloni insistiu que se tratava apenas de futebol.

Sua intenção era correta. Não jogar gasolina numa rivalidade dessa dimensão também é responsabilidade de quem lidera uma seleção.

Mas tudo ao redor da partida contradizia a possibilidade de neutralidade completa. A Fifa classificou o confronto como de alto risco e houve reforço de policiamento. As torcidas utilizaram acessos diferentes.

Antes da bola rolar, torcedores argentinos tentaram silenciar o hino inglês cantando “quem não pula é inglês”. Música já tradicional da torcida argentina, porém na hora do hino deixou ainda mais clara a mensagem da importância que a vitória carregava para o povo argentino.

Durante o jogo, o clima também esteve longe de parecer comum. Foram 19 faltas apenas no primeiro tempo e discussões começaram nos primeiros minutos.

Jogadores se empurraram, cercaram a arbitragem e transformaram cada dividida numa pequena disputa de território. Parecia jogo de Libertadores!

E jogo de Libertadores ninguém sabe jogar como os argentinos. Vitória de virada dos “Hermanos” e mais um capítulo escrito nessa rivalidade.


A faixa que mostrou o que todos sentiam

Na comemoração, jogadores argentinos pegaram uma faixa levada por torcedores e a estenderam no gramado:

“Las Malvinas son argentinas.”

A Fifa havia proibido a entrada daquele tipo de manifestação. A mensagem pode levar a Federação Argentina a sofrer punições por conteúdo político, além de possíveis sanções relacionadas ao comportamento da torcida durante o hino inglês. Mas, para além da discussão disciplinar, a cena teve um significado claro.

Os jogadores poderiam ter comemorado apenas a classificação. Escolheram conectar a vitória ao principal símbolo da disputa histórica entre os países.


O futebol como espaço de memória

Existe uma frase da canção que embalou a Argentina campeã mundial em 2022:

“Dos garotos das Malvinas que jamais esquecerei.”

A música coloca na mesma narrativa Maradona, Messi e os jovens enviados à guerra.

Na Argentina, a seleção, Maradona e as Malvinas estão entre as poucas referências capazes de atravessar diferenças sociais, políticas e geracionais.

Isso explica por que existem murais, estádios, músicas, bandeiras e manifestações que ligam o futebol às ilhas.


Futebol não é guerra

É necessário dizer com toda clareza: futebol não é guerra.

Uma derrota esportiva não se compara à morte de centenas de pessoas. Um gol não recupera território. Uma classificação não altera fronteiras.

Transformar conflito armado em metáfora romântica não diminui o sofrimento de quem viveu a guerra.

Mas reconhecer essa diferença não exige fingir que o futebol acontece fora da sociedade.

Ele carrega o que as pessoas levam para dentro dele.

Scaloni estava certo ao pedir responsabilidade. Mas o jogo mostrou que pedir para a história ficar do lado de fora do estádio não significa que ela obedecerá.

Foto: @skworldfootball

No fim, nunca foi apenas futebol

Durante a semana inteira disseram que era apenas uma partida.

Mas a segurança foi reforçada por causa da história.

As faixas foram proibidas por causa da história.

O hino foi abafado por causa da história.

O jogo foi tenso por causa da rivalidade construída ao longo da história.

E os jogadores encerraram a noite segurando uma mensagem sobre as Malvinas.

Porque o futebol não apaga o passado.

Ele reorganiza símbolos.

Transforma memória em canto.

Trauma em bandeira.

Ressentimento em rivalidade.

E, às vezes, oferece a um povo uma vitória simbólica onde a história deixou uma ferida real.

A Argentina venceu a Inglaterra com a bola nos pés.

Porque o futebol nunca termina no apito final.

Ele continua naquilo que um povo lembra.
No que escolhe cantar.
Nas bandeiras que decide levantar.
E nas histórias que encontra na bola uma forma de continuar contando.

Mas nunca foi apenas futebol.

Esse é o O Jogo Fora do Jogo.



Fontes e referências:

https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/07/15/por-que-guerra-das-malvinas-invade-inglaterra-x-argentina-apesar-do-enfatico-apelo-de-scaloni.ghtml?utm_source=chatgpt.com

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https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/07/14/argentina-x-inglaterra-tera-proibicao-de-bandeira-com-referencias-as-malvinas.ghtml?utm_source=chatgpt.com

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https://veja.abril.com.br/esporte/as-punicoes-que-a-argentina-pode-sofrer-por-faixa-com-mensagem-politica/

https://placar.com.br/copa-do-mundo/malvinas-entenda-a-origem-da-rivalidade-argentina-x-inglaterra/

https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/07/16/vejas-as-punicoes-que-a-argentina-pode-sofrer-da-fifa-por-conta-da-faixa-sobre-as-malvinas.ghtml

https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/07/16/jornal-ingles-lista-31-truques-sujos-da-argentina-contra-a-inglaterra-veja.ghtml

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgmd3l308k3o


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